31/10/2011

Críticas (re) Veladas

Foto: Reprodução de Internet


Críticas (re) Veladas

Ontem era domingo (mais precisamente, era à tarde do domingo), e como normalmente acontece aos domingos à tarde, minha esposa estava assistindo TV enquanto eu lia um jornal online no meu computador. Não é por nada, mas não sei se alguém já percebeu que aos domingos, principalmente à tarde não passa nada útil na TV, geralmente passam jogos de futebol ou na maioria das vezes ou das emissoras passam programas de auditório que tem pouco ou nenhum conteúdo significante, mas ontem algo me chamou a atenção, durante a chamada do Faustão, vi algo sobre uma professora de um estado do Nordeste, que proferiu um caloroso discurso em favor da educação na Assembleia Legislativa do seu estado durante uma audiência que discutia uma greve de professores, se não me engano.
Muito interessante esse assunto, as circunstâncias que envolviam o momento eram perfeitas para um debate que tinha bastantes chances de tomar níveis nacionais; começando com o discurso de uma mulher nordestina, dois adjetivos que lutam para vencer os preconceitos e ter o respeito que todos os gêneros e regionalismos merecem, e para acentuar, ela era professora numa das regiões mais carentes do país, e que possui índices educacionais muito ruins. O discurso da professora era interessante, mais do que interessante eu diria, era verdadeiro, um daqueles discursos que a gente, quando ouve, sente que verdades muito verdadeiras estão sendo ditas e que não temos argumentos para contestar ou nenhuma complementação para deixa-lo mais completo. Ela falou sobre o descaso com a educação, principalmente com a falta de valorização do professor, que para ter um mínimo de dignidade, ou seja, ter uma renda que lhe permita viver com um mínimo, bem mínimo, daquilo que é básico para sua sobrevivência, precisa se matar em várias escolas com dezenas, quando não centenas, de alunos, dos quais dificilmente se lembrará dos seus nomes ao final do ano. Comparou ainda o salário de um professor com o de um deputado, e se não me falha a memória, o salário de um deputado daria para pagar o de trinta professores, nesse momento eu quase me emocionei, pois já tinha pensado nisso antes, mas nunca tive coragem ou oportunidades de falar. Acho inadmissível que um deputado ganhe mais que um professor, ou ao menos ganhe mais do que professor bem qualificado, é revoltante saber que tem deputados analfabetos funcionais, ou com uma formação horrorosa, que ganham o salário de trinta professores, que normalmente possuem no mínimo uma licenciatura no ensino superior, mas o pior não é isso, é ainda mais revoltante ver deputados que já estão no quarto, quinto ou nono mandatos e durante esses dezesseis, vinte ou trinta anos não apresentou um projeto que tivesse alguma importância para nós brasileiros, são verdadeiros inúteis que ganham uma fortuna para fazerem nada, além de que muitos desses se opõem a professores e alunos quando estes se mobilizam em favor de melhorias na educação.
A professora nordestina disse muitas coisas, muita coisa interessante que todos nós precisávamos ouvir, que a sociedade brasileira precisava saber. Embora o discurso da professora fosse lindo e chocante, contudo não era novo, não, de forma alguma, ela não disse qualquer coisa que já não tivéssemos ouvido em muitas outras ocasiões em que educadores ou alunos também tiveram a oportunidade de se expressarem. Também acho pouco provável que alguém ou algum político discorde do que ela disse, ao menos não em público, creio que todas as secretarias municipais e estaduais de educação concorde plenamente com o que a valente professora nordestina disse, e não penso diferente em relação ao Ministério da Educação, seu ministro e todos os órgãos que compõem o organismo máximo da nossa educação, e muito menos tenho alguma dúvida que, se fosse possível colocar a presidenta da república em um link, ao vivo, durante a exibição do quadro, ela diria qualquer palavra de oposição à atitude e coerência do discurso da corajosa professora nordestina.
Estamos cansados, principalmente nós que trabalhamos ou estudamos a área da educação, de ouvir da necessidade de maiores investimentos na educação, melhores gestões dos investimentos, maior valorização do professor, melhorias das estruturas físicas das escolas, melhorias na qualidade do ensino, investimentos na formação continuada dos protagonistas do processo educativo. Já cansamos de ver políticos, pesquisadores e autoridades em geral, falar na TV ou em seus discursos que o país só se desenvolve e mantém o desenvolvimento quando se investe na educação, que quanto mais se investe em educação menos se investe em presídios, que só a educação permite uma verdadeira transformação social, que o país do futuro se faz com educação, enfim, são tantas frases bonitas, e principalmente, verdadeiras acerca do valor da educação de qualidade, que citá-las todas aqui levaria muito tempo e seria sobremodo cansativo, para resumir, ninguém, ninguém mesmo, discorda do valor e da importância da educação, todos concordamos com a necessidade de investimentos, melhorias e da transformação radical que o pensamento que move a ação educativa brasileira precisa sofrer para chegar ao nível que um país com a dimensão do nosso precisa passar, para que todo esse processo histórico de desenvolvimento e essa aurora de progresso não morram daqui a poucos anos, por insuficiência de gestores, pesquisadores, cientistas, políticos e de cidadãos autônomos que a escola de hoje, precária como está, não teve condições de formar para o amanhã que se aproxima.
Como já disse, todos os líderes, todos os políticos e todos aqueles que têm o poder, ou parte dele nas mãos concordam com a necessidade de mudanças profundas na educação, mas eu não entendo é porque eles não fazem nada, porque não tomam uma atitude, não consigo entender ou achar uma lógica que me faça compreender essa inércia diante de um assunto tão importante como esse, não sei de onde vem tanta má vontade para que políticos, ministros e secretários cruzem os braços e simplesmente finjam que nada veem, embora concordem com a precariedade do nosso sistema educacional, agem como se fossemos os protagonistas de uma revolução educacional de deixar americanos e europeus de queixo caído. É de pasmar você ligar a televisão e ver o ministro da educação comemorar o resultado de um exame nacional cheio de falhas e denúncias, é angustiante ver países tão pequenos como o Chile e a Coréia do Sul, com arrecadações que não chegam aos pés de muitos dos nossos estados, viverem uma revolução na educação e saltarem posições em rankings educacionais, que custa a nós brasileiros, crermos que em algum século vindouro consigamos fazer o mesmo, e ficamos humilhados em saber que somos a sétima maior economia do mundo, disputando posições com Estados Unidos, China e países europeus, enquanto temos que disputar posições com miseráveis países africanos em rankings educacionais.
Fico perplexo, revoltado, indignado e sinto tudo o que se pode sentir diante de um descaso desses, não precisamos e nem queremos discurso de autoridade nenhuma concordando e martelando em cima dos problemas educacionais, queremos ação, empenho e vontade política para fazer acontecer. Queremos atitude, para que não sintamos mais inveja dos americanos e europeus que mandam seus filhos para a escola e tem certeza de que estão num lugar que lhes darão um futuro melhor, coisa que não acontece conosco, pois temos medo de que nossos filhos estejam perdendo seu precioso tempo numa escola precária e que quando formar mal saberá somar e que talvez tenha que assinar seu diploma com suas digitais, pois não foi alfabetizado; queremos atitude para que não tenhamos medo de que mais um país africano ou da América Central nos ultrapasse em um desses exames internacionais que verifiquem o nível educacional dos países. Como seria bom se a nossa rivalidade com a Argentina deixasse os campos de futebol e entrasse para as salas de aula, podemos até ter mais títulos da Copa do Mundo que a Argentina, mas em termos educacionais os nossos hermanos já nos golearam, e olha que não estamos falando de um país desenvolvido, mas sim de um pequeno país com arrecadação muito menor que a nossa. Tantas perguntas me vêm à cabeça, quantas gerações ainda serão sacrificadas pela espera do inesperável? Quantas crianças cheias de sonhos os sacrificarão por causa de um sistema educativo ineficiente? Por mais quantas décadas adiaremos o despertar do “gigante adormecido”, pelo simples fato de não acordá-lo para fazê-lo ir para a escola? Por mais quanto tempo o “país do futuro” ficará a desejar esse futuro que nunca chega?
Enfim, para concluir, o discurso daquela grande professora nordestina não é novo e muito menos desconhecido, todos sabemos que é preciso fazer uma revolução na educação brasileira, e aqueles que detêm o poder para tal apesar de concordarem nada fazem. Mas não podemos desistir, temos que lutar e cobrar para que isto melhore. Não podemos deixar de crer que o discurso de uma professora nordestina, num programa de auditório e numa tarde de domingo não foi vão, temos que crer que deputados, senadores, o ministro da educação e governadores estavam sintonizados no Faustão. Temos que ter fé que a presidenta e toda esta gente não estivessem assistindo a um jogo de futebol.

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