23/03/2013

Geração Facebook



Geração Facebook

“Os jovens, sem camisa e com os rostos pintados saem às ruas, com paus e pedras nas mãos, gritam palavras de ordem, carregam faixas e se confrontam com a polícia. Alguns batem enquanto outros apanham, mas, firmes e resolutos seguem decididos e convictos de que estão lutando pelo que acreditam e isto é o correto.”
Essa seria a introdução que usaria para descrever a juventude brasileira das décadas de 70, 80 e 90, a geração que entrou para a história ao derrubar a Ditadura Militar e logo em seguida “conquistou o Bi” ao derrubar Collor, no que foi até hoje, passados longínquos vinte anos e dezenas de escândalos de corrupção maiores, o mais forte golpe na tradicional corrupção política brasileira.
Infelizmente a geração atual não herdou nada da coragem e bravura de seus pais, enquanto aqueles colocaram a “cara” nas ruas e fez a revolução, estes não querem nada mais do que o bom e velho sossego de casa ou do trabalho. Não diria que a geração atual não seja politizada, muito ao contrário, penso até que seja mais politizada do que a Geração do Enta (dos anos setenta, oitenta e noventa). O que falta aos de agora é a pura e simples ação. Hoje, qualquer um tem um belo discurso, condenando a corrupção, exaltando a ética, criticando o governo e propondo uma nova atitude política, mas não passa disso; acaba-se o discurso vai-se o revolucionário.
Nos últimos anos o cenário político brasileiro foi bombardeado pelos mais cabeludos casos de corrupção e desvios de recursos públicos, que conseguiram fazer de Collor apenas uma piranha nadando num mar de tubarões.
E os filhos dos verdadeiros revolucionários? O que fizeram?
Os filhos dos verdadeiros revolucionários não fizeram nada, a bem da verdade, penso até que nem sabiam o que fazer. Eram apenas uma geração preocupada em ser aprovada no vestibular, conseguir uma vaga num concurso público e saber o que iriai acontecer no próximo capítulo de Malhação.
Mas agora tudo mudou, temos uma geração politizada, participativa e revolucionária. Nenhuma atitude política mal intencionada ou escandalosa passa despercebida a esses revolucionários do Século XXI, a política e os rumos da sociedade contemporânea são calorosamente debatidos e não raro, polemizados. Pena que todo esse engajamento político esteja resumido na Linha do Tempo das redes sociais.
Sim, estamos vendo a Geração Facebook se levantar. Cada dia mais vemos os novos revolucionários lançarem seus manifestos na rede, cheios de palavras abreviadas e erros de ortografia, querem fazer a “Revolução”, sonham em mudar a cara e a prática da política nacional, em reformar a educação e valorizar o professor, apesar de serem assíduos cabuladores de aula; são defensores calorosos dos Direitos Humanos; fazem chatíssimas correntes compartilhando imagens de animais maltratados dizendo serem defensores dos bichos; compartilham trechos dos clássicos universais que nunca leram; citam Shakespeare, embora não tenham lido nada além de Romeu e Julieta; amam livros e literatura, apesar de só lerem a Saga Crepúsculo.
São politizados, e mais do que isso, são informados, estão a par do que acontece no mundo todo e em especial, no nosso país. Seus discursos, tirando os erros de Gramática, são profundos e refletem relativo conhecimento de causa. Mas ainda não perceberam que os dedos ágeis nos teclados de seus computadores e smartphones não produzem nada mais do que o blábláblá silencioso e vazio dos seus comentários. Atrás dos monitores se dizem ativistas, embora não tenham coragem de levantar da cadeira e dobrar o edredom da cama em que dorme.
As redes sociais inauguraram o ativismo dos inativos, carregados de teoria política e vazios da prática, dos que não sabem o que é um Grêmio Escolar ou uma União de Estudantes; dos que pregam engajamento e não participam nem do coral da igreja e daqueles que defendem o Meio Ambiente e jogam a garrafa de Coca Cola na rua. Enquanto estão sentados nas suas cadeiras digitando, curtindo e compartilhando as “publicações revolucionárias”, se sentem como se estivessem marchando nas manifestações das Diretas, enfrentando a Ditadura ou sendo um Cara-Pintada derrubando o Collor, quando são na verdade apenas uma geração que ainda não se encontrou, que confunde movimento com rede social, que pensa que entrar para a história é entrar nos trending topics.
O famoso revolucionário argentino Che Guevara ficou eternizado numa foto em que olha fixamente o infinito, interpretaria aquela foto como sendo ele observando as batalhas pelas quais ainda teria que lutar, mas, olhando fixamente além delas ele enxergava no horizonte a sua vitória, o êxito da revolução pela qual lutava. E a Geração Facebook, como seria a foto que melhor representaria ela? Alguém com a cabeça curvada e os olhos cansados olhando molemente a tela brilhante de um computador?
É preciso muito mais do que curtidas e compartilhamentos para mudar os rumos dessa nação. Muitos se empolgam porque as redes sociais foram importantes instrumentos para as revoluções que recentemente ocorreram no Egito, Tunísia e que ainda acontece na Síria. Mas muitos não percebem que elas foram apenas instrumentos, os manifestantes desses países usavam esses meios para marcar encontros e manifestações, e não para fazerem uma revolução digital, discordar, atacar e criticar o governo virtualmente. A revolução digital existe até a página ser fechada ou o computador ser desligado, o mesmo não acontece com a ação.
As redes sociais possibilitaram o grito dos calados, o inconformismo dos conformados, a insatisfação dos satisfeitos e a preocupação daqueles que só se preocupam com uma boa conexão de internet e uma balada para agitarem e esquecerem por um instante que são esquecidos; possibilitaram ainda o surgimento de uma nova atitude: a hipocrisia virtual.

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